Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Quinta-feira, 1 de Março de 2012
Se a vida em ebulição não me lembrasse da sorrateira morte
Se a lágrima a cair na almofada não me lembrasse do sorriso a iluminar a noite
Se o amor com toda a sua carícia não me lembrasse da dor e da perda incontável
Se a sufocante angústia não me lembrasse da esperança cega
Se a voraz gula não me lembrasse da abismal fome
Se a pele da criança não me lembrasse das rugas do idoso
Se o assobio do vento não me lembrasse o perfume das folhas secas no Outono
Se o sol da Primavera não me lembrasse as aves que me levam ao ciúme
Se a onda em ritual suicida na areia não me lembrasse da chuva no parapeito
Se o grão no deserto não me lembrasse da estrela no infinito
Se o bater de asas da borboleta no meu jardim não me lembrasse do tufão na China
Se o nada não me lembrasse o tudo de roupa vestida do avesso
Se o fim não me lembrasse a possibilidade d'um novo começo
Se a dúvida não me lembrasse a certeza de ser humano
Se a estrada não me lembrasse o cruzamento em aberto
Se a multidão não me lembrasse o sufoco de estar sozinho
Se uma pessoa não me lembrasse o calor do abraço
Se o despir não me lembrasse o dissecar d'uma alma à exaustão
E se o viver no interior de alguém não me lembrasse a imortalidade
Então definitivamente meu amigo
Eu não estaria em mim
E algo de errado se passaria comigo
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
Mother Love Bone - Chloe Dancer / Crown of Thorns
"I wanna tell you that I love you
But does it really matter?
Dreams like this must die"
Lembras-te da primeira vez
Que nos vamos beijar?
A pergunta permanece na mente
Daqueles que se deitam na cama
E fitam o tecto sem olhar mesmo para ele
São almas que nunca se viram
Mas que já se tocaram sem o saber
São corpos sozinhos e abandonados
Como despojos do temporal
Mas de lábios ávidos por magia e amor
Como te perdi e quando?
Questionam os que se amam
Mas que ainda não o sabem
Entre os lençois cobertos de lágrimas
À imagem da noite recheada de estrelas lá fora
Se alguma vez se encontrassem
Se vissem e se falassem
Como o fazem agora
Sozinhos com os seus botões
Eles diriam que se amam
Desesperadamente
Infinitamente
Mas permanece a questão enterrada
No fundo poço de cada um deles
Serviria mesmo para alguma coisa?
Porque deixaram um dia
De sonhar acordados um com o outro?
Porque adiaram e adiaram o encontro
E nunca mais se conheceram?
Porque e como deixaram de visitar
A casa e a cama um do outro?
Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
A propósito do dia dos namorados
Fica uma pequena história
Havia um rapaz na minha turma
Que não largava a namorada
Como se fosse uma irmã siamesa
Tinha sempre um sorriso no rosto
Quando estava colado a ela
Ela era de outra turma
Então ele passava os intervalos
A beijá-la e abraçá-la
Como se não houvesse amanhã
Vinham para a escola e iam
De autocarro juntos
Almoçavam juntos
E tinham um banco
Onde só eles se sentavam
Aos beijos
Como se mais nada existisse
Quando ele estava nas aulas connosco
Andava triste
E com os olhos nos ponteiros do relógio
À espera que o toque o salvasse
Várias vezes faltava às aulas
E assistia às dela em vez
Eu achava aquilo tudo paneleirice
E ficava chateado
Porque era menos um
Para jogar futebol
Nas aulas de educação física
Já que eram quase só raparigas na turma
Eu era um miúdo
E definitavemente
Não percebia nada daquilo
Se alguma rapariga gostasse de mim
Por mais que se pussesse à minha frente
E o demonstrasse
Tinha de dizê-lo com todas as letras
Que eu não o percebia
(Ainda hoje não o sei ao certo acho eu)
Naquela altura só estava bem
Com uma bola nos pés
Com as mãos nos matraquilhos
Ou nas arcadas do café
Contentava-me com gomas na boca
E em estar na galhofa com os amigos
Mas isso é outra história
O que quero dizer
É que afinal
Ele não era tão banana
Como eu pensava
Se tenho aprendido algo
Ao longo dos anos
É que o amor
É o nosso bem mais precioso
E das poucas coisas
Que vale mesmo a pena lutar na vida
E para finalizar a história
Vi o rapaz de novo
No outro dia
Para meu espanto
Continuava com a mesma rapariga
Passados estes anos todos
Gostei de pensar que
Talvez eles perceberam rápido
O que muitos não percebem
A vida toda
Talvez eles acertaram um no outro
Muito cedo na vida
E nunca mais se largaram
Ao contrário de muitos
Que infelizmente
Nunca chegam a encontrar
Essa droga
Chamada amor
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Be Quiet And Drive (Far Away) - Deftones
"O amor entre jovens de vinte anos não é apenas o contacto de duas epidermes. Esses dois lobos, com igual necessidade interior, querem também calor e poesia"
Françoise Sagan
Debaixo das luzes da cidade afogada em desejos anónimos eles se conheceram. Eles nasceram. Algures entre linhas mal lidas, ruas, casas e carros vazios, eles brilham hoje e caem em lugar. Únicos e completos. Pela linha de prata do órfão nevoeiro, ele pega na mão dela e canta a sua música preferida. Ela completa a cantiga. Ela deixa sair as palavras como facas e ele sorri. Palavras tornam-se acções e o silêncio varre o espaço. O ar é leve e eles flutuam, respirando cada um o outro. Começa a chover com força nos vidros e a água dissolve por completo as suas máscaras. Por mais que tente, a noite não consegue cobrir as suas almas nuas. Perdidos e encontrados um no outro, eles têm apenas um desejo: fugir ao mundo, o cinzeiro onde eles bracejam violentamente nas cinzas. Querem arder como um só. E eles tentam. As luzes desfalecem. A noite abandona-os. Só eles brilham.
Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
“I was walking along a path with two friends – the sun was setting – suddenly the sky turned blood red – I paused, feeling exhausted, and leaned on the fence – there was blood and tongues of fire above the blue-black fjord and the city – my friends walked on, and I stood there trembling with anxiety – and I sensed an infinite scream passing through nature.” Edvard Munch, 1893
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Querido espírito
Desertei-te
Espero que não me leves a mal
Mas quando leres esta carta
Já estou algures
Longe
De ti
Fartei-me de demónios interiores
E de complicações sem fim
Cansei-me de ser pesado
E de dar um passo para a frente
E dois para trás
É verdade que lutamos bastante
Mas em vão
Não sei se já reparaste
Mas partes o coração a ti próprio
E eu sei porquê
Porque ninguém to pode partir
Tu chutas ao lado
Mesmo em cima da linha de golo
Só porque todos esperam que tu marques
Tu cais propositadamente
Quando estás prestes a chegar ao sol
Simplesmente
Porque não sabes ser feliz
Isso deixa-te sem saber o que fazer
Não consegues viver com isso
Desculpa
Cansei-me
De tudo isso
De tudo isso
Rendi-me
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
Take You O A Cruise - Interpol
O meu barco navega sem rumo
No mar dos teus sentimentos
Onde o deixas
Sozinho
Ao abandono
Em deriva
Constante
Não me agrada nada
E decido partir com ele
Pois o meu amor
Nada mais é
Que esse sorriso
Que nunca cheguei a ver
Em ti
Parto em silêncio
Ao virar das tuas costas
E vou sem olhar para trás
Para o futuro
Que não chegou a existir
Haverá no entanto
Sempre um sítio
Onde posso ser encontrado
Mas não o revelo
Prefiro ser uma imagem viva
A uma presença morta
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
We Only Come Out At Night - Smashing Pumpkins
(versão de alguém, não encontro o original deles)
(versão de alguém, não encontro o original deles)
Onde eu vivo apagam as luzes muito cedo por motivos de poupança.
Eu gosto.
Perto da hora do apagão podes subir ao topo da vila e mexer os braços como um maestro e todas as minúsculas luzes lá ao fundo morrem em conjunto, como uma seita suicida em noite de sangria combinada.
Depois é a loucura meu caro. É a anarquia!
Se fores uma pessoa como eu, que envelhece três anos num só, então estás com sorte meu amigo. Há esperança para ti. Podes regredir na idade como naquele livro/filme do benjamim butão.
Podes tomar várias das seguintes sugestões, todas elas a título exemplificativo:
Podes tomar várias das seguintes sugestões, todas elas a título exemplificativo:
Passa pela casa dos teus amigos e apita para eles saírem e se juntarem à festa, mesmo que estejam a trabalhar e a viver no estrangeiro.
Atira uma pedrita à persiana da rapariga que te deu uma nega na escola (quem sabe ela não mudou de ideias entretanto), ou toca-lhe à campainha só para ela aprender que isso não se faz a uma pessoa como tu (se isso mexeu com a tua psique e auto-estima durante toda a tua adolescência chama-lhe agora gorda e feia que resulta).
Vai ao jardim do vizinho que não gosta de ti e tens várias opções:
a) rouba-lhe laranjas;
b) mete-lhe cartas anónimas de amor na sua caixa de correio só para deixar a mulher dele com razões para o tratar mal;
c) muda-lhe os vasos do sitio para o levar a pensar que está doido e que não sabe o que faz;
d) faz-lhe xixi no pneu do carro (vai pensar que foi um cão);
(tens muitas outras opções evidentemente, mas não quero perder tempo neste ponto, puxa pela tua querida imaginação).
d) faz-lhe xixi no pneu do carro (vai pensar que foi um cão);
(tens muitas outras opções evidentemente, mas não quero perder tempo neste ponto, puxa pela tua querida imaginação).
Visita o parque e anda de baloiço para teres um resquício de infância, mesmo que não a tenhas tido.
Entra em casas em construção e deixa ajudas para os construtores civis: desenha camas, mesas, lavatórios, sanitas e afins no chão, para eles saberem os sítios das coisas, e escreve os nomes das pessoas nos quartos, para dar calor humano àquele amontoado de legos de cimento.
Escala casas em pedra muito altas só para saber se as consegues domar ou não.
Entra destemido no bosque e imagina que cada barulho não identificado é um lobo esfomeado que te persegue com a língua de fora e com a baba a escorrer nas patas.
Embeleza os sinais de trânsito e leva um dos redondos para casa, dá uma boa mesa com uma grade de cerveja por baixo (ou com um bloco das casas em construção). É sempre útil uma mesa baixinha mesmo ali junto ao teu puf.
Sobe ao palco montado para a festa ou ao coreto da igreja e dança como um tolinho para uma multidão inexistente de 200 mil pessoas.
Invade o campo de futebol e tenta marcar golo de meio campo ou acertar em cheio nos postes (demora mais do que julgas).
Sobe ao palco montado para a festa ou ao coreto da igreja e dança como um tolinho para uma multidão inexistente de 200 mil pessoas.
Invade o campo de futebol e tenta marcar golo de meio campo ou acertar em cheio nos postes (demora mais do que julgas).
Faz o que te der na telha caríssimo.
Deves é conduzir de máximos ligados, não vá algum pobre animal se meter no caminho (cuidado com cavalos selvagens, aviso-te já).
O melhor de tudo é que se alguém passar por ti podes te armar em vigilante e perguntar-lhe o que anda a fazer. Se ficar tímido deixa-o ir. Se estiver a fazer brincadeiras então junta-te a ele e procura mais cúmplices. Quem sabe não encontras alguém que te alegre a vida.
Photos by JP
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Ela aproximou-se por trás
E eu senti o seu hálito nas costas
Dei-lhe automaticamente uma cotovelada
Bem no meio da cara
E ela caiu
Estatelada no chão
Levou as mãos à boca
E contou dois dentes na palma da mão
O nariz não estava melhor
Não parava de esguichar sangue
E pendia para a esquerda
Ela não dizia nada
Mesmo que quisesse não conseguia
Eu estendi-lhe a minha mão e disse:
"Venci-te!
Mesmo que um dia passes
E me apanhes desprevenido
Ela continuará a vir
A colher
E a ler as flores
Que a terra do meu caixão semea"
Ela ficou resignada
E continuou sem dizer nada
No meio da sua feiura
O seu nome era morte
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Low - last night I dreamt that somebody loved me
Na outra noite eu sonhei que alguém me tocava ao de leve com lábios vivos e me abraçava com braços graciosos, assim como dois pescoços de cisne enlaçados. Alguém real me beijava a montanha das costas, e me sussurrava ao ouvido palavras inteligíveis que me faziam sorrir por dentro. Era um vulto de contornos belos que me aquecia o corpo e escorria a alma pelas frinchas da porta. Essa presença iluminava-me as águas lá no fundo do infinito poço do meu vazio, e em mim choviam lágrimas de ternura que o preenchiam lentamente. Eu não resistia. Não fazia nada. Aproveitava o momento. Mas o silêncio pesava-me. Perguntei-lhe: Quem és? E a assombração não respondia. O que queres de mim? Teimei. E nada...Estás aí? Em vão...Estava sozinho, de novo, tal como tinha vindo ao mundo. Sem pais e sem o cobertor do amor, o maior tesouro da humanidade. Comecei a ficar amargo porque tinha perdido aquele sentimento. O abcesso de existir corroía-me mais uma vez. Fiquei magoado, porque o que o sonho dá a realidade tira. A dobrar. Preferia não sonhar e viver na escuridão, sem conhecer um toque como aquele, um abraço como esse, que nunca existiu. Algo em mim estremeceu e soluçou. É só mais uma noite nas longas noites da minha vida, repeti para mim, agarrado ao conforto da almofada do desconforto, tentando esquecer aquela voz ecoando nas minhas paredes, como em chamamento. Adormeci por fim. Mas de manhã o fantasma ainda lá estava. Eu é que não o conseguia ver.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




































